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Autoimagem: a insatisfação com o próprio corpo e a busca por procedimentos estéticos

Quando se tem expectativas condizentes com a realidade e com consciência dos riscos, procedimentos estéticos, cirúrgicos ou não, podem ser benéficos para a qualidade de vida e para a autoestima. Quando há idealizações, porém, realizá-los pode ser uma decisão perigosa

 

Por Gabriela Custódio

 

O Brasil foi o país onde mais se fez cirurgias plásticas estéticas em 2019, segundo dados mais recentes da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS, em inglês). Divulgada em 9 de dezembro de 2020, a pesquisa global da entidade aponta que, naquele ano, foram quase 1,5 milhão de procedimentos cirúrgicos no País. É o equivalente a 13,1% do total realizado em todo o mundo.

Lipoaspiração (15,5%), aumento de mama (14,1%) e abdominoplastia (10,4%) foram as cirurgias mais realizadas, seguidas por cirurgia de pálpebra (9,7%) e aumento de nádegas (7,7%). Quando a decisão por realizar esses ou outros procedimentos é tomada de forma responsável, com as expectativas condizentes com a realidade e com consciência dos riscos inerentes a toda intervenção, o resultado pode trazer benefícios para a qualidade de vida e para a autoestima dos pacientes.

Por outro lado, se houver idealizações ou se a pessoa está passando por problemas relacionados à saúde mental, realizar um procedimento estético, seja ele cirúrgico ou não cirúrgico, não deve ser a saída. “Há de se ter muito cuidado com os exageros, com a busca desenfreada por cirurgias e procedimentos estéticos”, arma a dermatologista Sílvia Helena Rodrigues (CRM 6742/RQE 2710), atual presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) – Regional Ceará.

Antes da realização de uma cirurgia plástica estética, é importante que o profissional busque identificar a capacidade do paciente de lidar com frustrações. Se o procedimento for “uma fuga”, o médico Salustiano Pessoa, titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e professor de cirurgia plástica da Universidade Federal do Ceará (UFC) arma que essa pessoa não deve passar pela operação.

Dessa forma, trabalhar com uma equipe multidisciplinar é importante tanto para o diagnóstico de transtorno dismórfico corporal, por exemplo, como para o momento da cirurgia. “Um psicólogo bem treinado com certeza tem muito mais condições de fazer esse diagnóstico do que eu. E ter uma boa enfermeira, um bom instrumentador que cuide bem dos ferros durante o manuseio é super importante. Um anestesiologista é fundamental”, arma.

A dermatologista Sílvia Helena Rodrigues acrescenta a necessidade de se fazer uma “avaliação crítica, individual” da anatomia, do formato do rosto e do corpo de cada paciente, além de ter senso estético “para que os resultados não corram o risco de ser inadequados”. Quando um procedimento vira moda na internet entre blogueiras e influencers, por exemplo, muitas pessoas buscam profissionais para realizá-lo.

“Um exemplo recente foi a procura pelo chamado fox eyes, no consultório. É aquela cauda de sobrancelha mais elevada, lembrando o olhar de raposa.

 

Muitas mulheres (estavam) querendo, mas não é em todas que caria bem. O formato de rosto é determinante para o bom resultado. Enfim, nem tudo fica bem em todo mundo”, arma a dermatologista.

O “grande problema” das redes sociais, para Salustiano Pessoa, é a banalização dos procedimentos e dos riscos que eles oferecem. “O cara acha que fazer uma lipoescultura, uma lipo HD, é como tomar uma cocacola na esquina. E não é”, afirma.

Questões éticas envolvendo procedimentos estéticos

Médicos não podem realizar parcerias, permutas ou sorteios nem utilizar fotos de “antes e depois” para vender resultados “surpreendentes”. Após a notícia do óbito da influenciadora digital Liliane Amorim, aos 26 anos, por complicações após uma lipoaspiração, a também influenciadora Thaynara OG publicou um vídeo nas redes sociais contando a própria experiência com complicações de uma cirurgia plástica estética. Em março de 2020, a maranhense realizou uma lipoaspiração de alta definição. Também chamada lipo LAD ou lipo HD, o procedimento, além de remover o excesso de gordura, modela e destaca os músculos.

“Acho que de tanto ver no Instagram, eu decidi por fazer aquela técnica famosa (a lipo LAD) que várias influenciadoras e blogueiras estavam fazendo”, arma. Ela conta que inicialmente recebeu a proposta de que o procedimento fosse realizado na forma de permuta — tipo de negociação em que influenciadores recebem produtos ou serviços em troca de publicações.

A prática sugerida fere o Código de Ética Médica do Conselho Federal de Medicina (CFM), assim como toda e qualquer forma de parceria ou sorteio. A publicação de fotos de “antes e depois”, tão presentes em redes sociais, também é vedada aos médicos. As normas visam “proteger a integridade dos pacientes e a boa prática médica”, explica Leandro da Silva Pereira, secretário-geral da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).

Pereira explica que o uso dessas imagens é “extremamente perigoso” na criação de falsas expectativas, uma vez que, além da manipulação das fotos, luz ambiente e posicionamento interferem na imagem. “Ademais, alguns profissionais mostram foto ainda no centro cirúrgico alegando resultados surpreendentes. Há que se considerar que um processo cicatricial demora no mínimo seis meses, ou seja, muita coisa vai mudar ao longo do pós-operatório”, complementa.

Em 2020, para conscientizar a população sobre o tema, a SBCP criou a campanha digital “Não existe milagre: existe ciência, responsabilidade e especialização”. As peças publicitárias mostram, por exemplo, o passo a passo de retoques digitais nas imagens e como a postura ou o ângulo alteram o resultado final. “Resultados reais não estão relacionados única e exclusivamente à cirurgia. Eles dependem, também, da adoção de hábitos saudáveis, acompanhamento multiprofissional e cuidados pós-operatórios”, diz uma das postagens da campanha.

 

Fonte: O Povo

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